BUSINESS | 5 MINUTOS

Teletrabalho: Vamos olhar para o futuro, a sério!

Escrito por Jorge Pires
Diretor da CCP - Confederação do Comércio e Serviços de Portugal
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Mulher com sono no escritorio

“Postos estão frente e frente, os dois valerosos campos…”
Miguel Leitão d’ Andrada (1629)

Por vezes temos a tentação de promover estes estranhos contrastes: Citar o passado quando queremos falar sobre o futuro.

A escolha desta citação não foi casual. O autor escreveu um poema musicado, célebre na época, sobre a infausta batalha de Alcácer-Quibir. O valor que se atribui a esse poema, que pretendia descrever a morte do Moço Rei, resulta de o autor ter sido um dos poucos sobreviventes a essa hecatombe.

Tal foi a tragédia desses tempos, que arruinou o País, pelos custos da campanha em si e, mais ainda, pelos vultosos custos dos inúmeros resgates de Nobres aprisionados. E que custou a Portugal a independência durante 59 anos.

A tragédia dos nossos tempos é a Pandemia.

Tal como num campo de batalha, também em relação ao futuro do teletrabalho se formaram dois campos: os indefetíveis defensores do trabalho remoto, que acreditam que será predominante no futuro das relações laborais e os igualmente convictos paladinos do regresso absoluto ao passado, com o retorno do teletrabalho a uma escala semelhante à de janeiro de 2020.

Não quero cansar os leitores com a enumeração dos méritos e deméritos do recurso ao teletrabalho nos últimos doze meses. Desde os media até às nossas conversas de café, quando raramente são possíveis, passando por um sem número de artigos de opinião e tratados mais ou menos científicos, oscilando entre a gestão e a psicologia, já tudo terá sido dito.

Não, não vou falar do passado, que foi o que foi, nem sequer do presente, por mais que este se pretenda esticar pelo futuro. Quero apenas propor alguma atenção sobre o futuro pós-covid, qualquer que seja a sua data de início e mesmo que conflita com a esperança de vida do autor…

É que me tem sempre parecido que o debate sobre o futuro do teletrabalho está sempre contaminado pelo determinismo externo à nossa vontade que nos tem imposto a sua utilização.

Se em 1945 à beira do fim da guerra, fosse realizada sondagem sobre o modelo mais seguro de imóveis ou a forma mais eficiente de distribuição de bens de primeira necessidade, duas respostas seriam dominantes: Residências com cave à prova de bombardeamento e o sistema de senhas de racionamento. A verdade é que, a breve trecho e com indesmentível ansiedade, os Povos se esqueceram de ambos!

O que irá de facto acontecer no futuro do teletrabalho?

São muitos os argumentos pela defesa do papel do trabalho remoto no futuro pós-pandémico, quer por parte das Empresas, quer por parte dos Colaboradores.

As Empresas elegem a redução de custos, pela dispensabilidade de instalações e, mesmo quando mantidas, pela evidente redução de custos de estrutura; a facilidade de recrutamento de Colaboradores residindo fora da área geográfica das instalações da Empresa; a maior flexibilidade para os horários mais convenientes à organização do trabalho, pela ausência de tempos de deslocação.

São muitos os argumentos pela defesa do papel do trabalho remoto no futuro pós-pandémico.

Os Colaboradores referem também essa flexibilidade e a ausência de tempos e custos de deslocação e a possibilidade de estarem mais próximos da família.

Já muitas vezes terá sido usada a expressão: “É nos momentos mais críticos que se revela o melhor das Empresas e das Pessoas”.

O comportamento da Indústria do Contact Centers, perante os riscos para a segurança e para a saúde dos seus Colaboradores e para a continuidade dos serviços, foi reconhecidamente extraordinário. A reação desses Colaboradores e a sua capacidade de adaptação às novas condições foi igualmente notável.

Estamos, portanto, todos de parabéns.

Contudo, a História ensina-nos que esta atitude não é universal e, sobretudo, tende a transfigurar-se quando as circunstâncias parecem estar a melhorar.

A horrível frase do Barão de Rothschild ecoa desde o século XVIII: “When there’s blood in the streets, buy property”. O horror da frase decorre do seu significado literal, mas mais ainda, da sua atualidade.

É nos momentos mais críticos que se revela o melhor das Empresas e das Pessoas.

A figura do War Profiteer não tem a conotação amável de Sir Oliver “Daddy” Warbucks do musical Annie…

E não estou a insinuar que esses desvios à atitude correta perante as circunstâncias são exclusivos das Empresas.

É certo que, pouco depois de se iniciar o teletrabalho, houve a sugestão, por alguns, da suspensão dos subsídios de alimentação, momento menos feliz, ainda por cima inútil dada a inevitável pronta reação do Governo esclarecendo a sua ilegalidade.

Mas agora temos o coro de solicitações de compensações aos Colaboradores, por parte de Partidos e Sindicatos, pelo acréscimo de custos com despesas domésticas diversas, como água e energia.

As Empresas são tratadas como se tivessem escolhido o teletrabalho para colher vantagens próprias e não pela necessidade de proteger os seus Colaboradores. E agora até já são obrigadas, sem opção, a seguir essa via.

E nada se diz sobre os grandes custos que as Empresas tiveram de suportar em Tecnologia, equipamentos, restruturação do seu modelo de organização.

O futuro do teletrabalho, à luz do mais elementar bom senso, seria uma realidade menor que a que assume atualmente, mas claramente maior que a que conhecíamos em janeiro de 2020.

Deixemos, por um pouco, de lado o bom senso, esse que será o bem que Deus terá distribuído de forma mais perfeita, uma vez que ninguém se queixa de ter falta…

Olhemos um pouco para as ameaças que se perfilam no horizonte e que vão condicionar, na minha opinião, gravemente a expansão do teletrabalho.

Por um lado, temos o ambiente de reação social à formação de dois novos blocos, inesperados para os teóricos da luta de classes: As tarefas que são compatíveis com o teletrabalho e as tarefas que não o permitem.

Os sinais estão aí. Susana Peralta, da NOVA School of Business and Economics escreveu que “…a crise deve ser paga pela burguesia do teletrabalho…”

A frase, tão inesperada quanto infeliz, é sintomática de um certo mal-estar que envolve setores e profissionais fortemente prejudicados por uma crise económica cujos contornos não são ainda conhecidos, mas cuja dimensão se percebe estará para lá de tudo o que as pessoas vivas jamais experienciaram.

Se a afirmação daquela Docente Universitária não vos preocupou muito, o que dizer da próxima.

Um estudo do Deutsche Bank defende que seja criado um imposto adicional ao rendimento dos Trabalhadores em teletrabalho, no montante de 5%, destinado a financiar os que, não tendo essa possibilidade, auferem rendimentos baixos. Questionado sobre esta eventualidade, o Ministro das Finanças de Portugal afirmou que não era o momento oportuno de analisar essa questão e que tal deveria ocorrer em sede de Concertação Social.

Independentemente dos juízos de valor que esta consideração mereça, é interessante saber que, para chegar aos tais 5%, os economistas do Deutsche tiveram em conta os custos acrescidos que os teletrabalhadores suportam e os ganhos que obtêm nesse modo remoto. E 5% é inferior ao resultado favorável aos teletrabalhadores da ponderação dessas duas realidades.

Parece ser uma resposta interessante aos que pretendem apresentar contas de água e energia…

Mas se ambos os exemplos vos parecem muito teóricos e não exequíveis, o que dizer da exigência já verbalizada, mais de uma vez, por responsáveis da ACT, que entendem que é responsabilidade das Empresas assegurar nos locais de trabalho remoto, mesmo que sejam as residências dos Colaboradores, todas as condições a que têm de obedecer as suas próprias instalações?

Acho que, antes de serem tomadas decisões definitivas sobre a dimensão da utilização do teletrabalho no período pós-covid, convém ir acompanhando a evolução destas novidades que vão surgindo e estarmos particularmente atentos às novidades legislativas que o Governo está a preparar e para as quais as Associações devem ser ativamente intervenientes.

Entretanto, permito-me deixar-vos um conselho: Procurem informar-se sobre as condições de utilização de soluções de CoWorking. Aí pode estar a solução bondosa que assegura as vantagens que todas as partes envolvidas procuram.

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