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Os números não mentem, ou será que mentem?

Escrito por António Serra
Project Manager @ GoContact
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Mulher com sono no escritorio

Todos os dias somos bombardeados com números. Seja nos media ou no nosso trabalho, é algo impossível de escapar. Todos os dias milhares de relatórios são feitos com o propósito de provar, desaprovar, justificar ou esclarecer algo. Tornou-se algo tão comum, que sempre que nos é solicitado algum relatório, fazemo-lo e nem questionamos.

Desde que entrei no mundo laboral, há quase 20 anos, independentemente da área, sempre existiram relatórios e números. Números esses que nunca mentem, ou pelo menos assim nos foi “ensinado”.

Sendo eu Engenheiro de formação na área da física, o contacto com os números surgiu logo desde o início do meu percurso académico, tal como acontece com a maior parte das pessoas. No entanto, os físicos têm uma forma “cética” de olhar para eles, uma perspetiva de dúvida que talvez fosse interessante partilhar com todos.

Enquanto estudava na FCUL, tive o privilégio de ser aluno de uma das mentes mais brilhantes do nosso país: o Professor Doutor Eduardo Barroso, que tinha uma opinião muito interessante sobre os números.
Numa aula de Mecânica (física clássica), o professor virou-se para o auditório e perguntou: “qual a quantidade de energia necessária para quebrar uma ponte de hidrogénio numa molécula de h2”?
Sendo o professor em causa um dos mais respeitados na sua área, ninguém quis arriscar dizer o número errado e num auditório com mais de 200 alunos, o silencio era sepulcral.
Aos poucos alguns dos mais atrevidos foram dando alguns, como diz o povo, “bitaites”, uns mais próximos da realidade, outros mais afastados da resposta certa, até que o professor apontou na minha direção e perguntou: “De todos os valores mencionados pelos colegas, qual deles está certo?”
Depois de rapidamente repensar as minhas escolhas académicas, respondi: “Peço desculpa Professor, mas não sei o número exato. No entanto, sei que a sua ordem de grandeza é X”
Ao que o professor retorquiu: “É isso mesmo! Eu não quero que vocês saiam daqui com tabelas de números decorados. É para isso que existem os livros (sendo um professor catedrático com mais de 40 anos de ensino e 70 de vida, a internet era algo interessante, mas não de “fiar”). O que eu quero é que vocês saibam olhar para um número e dizer com o maior grau de certeza possível, se este pode ou não ser verdadeiro!”. Esta última frase marcou-me para o resto da minha vida académica e profissional.

Esta última frase marcou-me para o resto da minha vida académica e profissional.

Numa outra cadeira tive de fazer um projeto de uma barragem. Este trabalho envolvia não apenas o projeto de engenharia, mas também o estudo de Impacto Ambiental e a análise de viabilidade económica. A análise económica de um projeto da dimensão de uma barragem é algo gigante. Entre a análise de produção, o VAL, o RAL e o TIR, o relatório em excel tinha mais de 20 abas!
Tendo em conta o tempo que tinha para este projeto, as restantes cadeiras e o facto de trabalhar full time, no dia anterior à data de entrega do mesmo, percebi que tinha feito um erro e que numa das 20 abas, numa coluna e linha especifica, existia um erro! Apesar de não saber o número que devia ter obtido, sabia que a ordem de grandeza, estava errada! Faltavam 5 minutos para a entrega do relatório e acabei por fazer uma das piores coisas de sempre: levando o lado do “Desenrasca” ao máximo, “martelei” os resultados, alterei formulas e “aldrabei” dados.

Para meu espanto, quando saiu a avaliação dos projetos, tive um 16. Isto seria impossível caso os meus dados tivessem sido alvo de escrutínio. Certamente que não foram e dificilmente seriam. Eu fazia parte de uma turma de mais de 200 alunos, onde os grupos de trabalho eram compostos por duas ou três pessoas, o que significa pouco menos de 100 projetos ou, dando vida aos números que tanto amamos, 2000 abas de excel para ver!
O tempo necessário para a tarefa Hercúlea seria igualmente gigantesco e incomportável e mesmo que se chegasse a um resultado real relativamente à qualidade dos trabalhos apresentados, o tempo que seria ainda necessário despender para a refutação por parte dos alunos, tornariam todo o
processo irrealmente moroso senão mesmo infrutífero.
Resta dizer que ninguém teve um 20 porque embora pudessem existir trabalhos excelentes, o tempo para apreciar esses mesmos trabalhos seria, mais uma vez, gigantesco. Posto isto, certamente a avaliação foi feita com base em intervalos de valores de dados específicos sem consideração pela forma como os mesmos foram obtidos. Muitas vezes, não é apenas a quantidade de números que se torna avassaladora, é a própria forma como os apresentamos que pode induzir-nos em erro.

Muitas vezes, não é apenas a quantidade de números que se torna avassaladora, é a própria forma como os apresentamos que pode induzir-nos em erro.

Enquanto pesquisava estudos de impacto ambiental que me servissem de guia para o meu próprio estudo, reparei num padrão usado para a apresentação de números. Sempre que um valor era de difícil obtenção, de origem duvidosa ou desconhecida, ou simplesmente irrelevante, o mesmo aparecia dissimulado numa percentagem.
Imaginemos que se pretende reportar que o número de habitats que seriam impactados com a construção da barragem seriam 2.
Dependendo da nossa posição relativamente ao número em questão, o mesmo poderia ser apresentado da seguinte forma:
Número absoluto: 2.
Número relativo: 50%
Olhando apenas para os números e esquecendo a forma como nos são apresentados, o nosso cérebro está programado para responder de forma mais emotiva e, chamemos-lhe, dramática, a números grandes. Logo, apresentar um “impacto em 50%” dos Habitats teria muito mais impacto do que apresentar apenas o singelo número 2. Sobretudo porque o número absoluto pode ser apresentado isolado do universo em que se insere (2 em 4).

A incessante procura por números exatos, a quantidade massiva de relatórios, a falta de contextualização e a forma como os números nos são apresentados, podem facilmente induzir-nos em erro. Se é verdade que os números não mentem, não é menos verdade que as conclusões que retiramos desses números, podem de facto ser enganadoras ou mesmo falsas.
Os números e os relatórios são extremamente importantes e permitem-nos caracterizar e prever o funcionamento das nossas operações. Contudo o número excessivo de relatórios, a forma como os dados nos são apresentados e a falta de contextualização, podem levar-nos a conduzir as nossas
operações de uma forma mais intuitiva e menos científica.
Um relatório para ser útil, deverá ser elaborado tendo em conta os seguintes pontos:

Definir o que se propõem a caracterizar ou prever.
Definir o que será considerado como positivo ou negativo
Definir o que será alvo de estudo.
Caracterização do universo em que se insere.
Definir como serão recolhidos os dados.
Contextualização
Conclusão.

Idealmente os relatórios devem ser simples, diretos e contextualizados para que sejam de facto usados para aquilo a que se propõem.

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